Páginas

sábado, 20 de junho de 2026

Há noites

 



Há Noites
 
Há noites mais escuras,
noites em que nem a sombra se atreve a sê-lo.
Há noites em que apenas o silêncio impera atravessado pelo grito mudo da alma.
Há noites em que, até, o grito mudo da alma, que sofre, se dissipa em notas loucas.
E, nessas noites as quatro paredes do quarto estreitam o corpo que sufoca sem dor.
Tudo parece inerte.
Nem o relógio, preso ao pulso, se atreve a mexer qualquer um dos seus três ponteiros.
E, nessas infinitas noites, revela-se o monstro que nos consome:
Os cérebros, que não se calam, repetem uma e outra vez as vozes que te gritaram, as bocas que se taparam, as portas que se fecharam, os telefones que não mais tocaram, a vida que te ceifaram.
Maldito pensamento que te amarra com linhas finas e invisíveis causando a inércia que te tolhe.
Maldita noite,
Maldito o pensamento que te consome.
MALE DITOS!
 
26/02/2026
Fernanda Paixão



sábado, 1 de março de 2025

Não vás


Quando eu morrer não vás a correr,

Não chores, não grites, nem te tão pouco tempo agites.

Não te enganes, faz o que sempre, tão bem, fizeste, 

aquele fingimento tão teu, tão inato, que engana o mais literato,


A tua roda de vida, falseada de etiqueta, corta laços de sangue como lâmina de baioneta.


Aquela ambição camuflada, aquela necessidade exaltada, de parecer sem ser, não a quero levar de ti quando morrer. 

Mantém a porta fechada, finge só mais uma vez, deixa-me partir em paz sem a tua falsidade voraz.


2025.02.22

Fernanda Paixão 


domingo, 3 de novembro de 2024

Estarei por aí






Um dia estarei por aí,

Perder-me-ei entre paredes caiadas de branco.

Olharei as portas e as janelas fechadas, adivinhando os cheiros e as cores que mantêm veladas.

Nem os passos que se cruzam com os meus me encontrarão.

Passarei leve, em silêncio, pesando as correntes do passado e deixarei correr, livres, as dores das máculas que a vida fez questão de escrever.

Serei eco das memórias guardadas que os ramos das árvores sacodem na tentativa de purgar a dor.

E as saudades serão as sombras do ontem que, agora doces, caminharão ao meu lado.

E quando, como brisa, fugir por aí, soprarei, livre, as palavras que um dia contive.

Um dia, estarei por aí 

2024/07/23

@ Fernanda Paixão

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Não Chores


Quando partir não chores,

Já não chorarei por ti.

Não eleves as qualidades que nunca reconheceste.

Mantem o silêncio e a postura de quem nada aportou à vida para além da dor.

Mantém o silêncio das mentiras que não soubeste calar.

Lembra-te, o "amor" não é  folia nem pudor, é sangue, luz e cor;

É o cheiro da manhã que assalta o  despertar; é sonhar acordado sem vontade de acordar.

"Amor" é sentir a dor que o outro sente e pintar-lhe um sorriso quando descrente.

Quando partir não chores.

Eu já não chorarei por ti e levarei aquilo que fizeste questão de me ofertar, seja dor ou seja Amor;

qualquer tipo de Amor;

qualquer tipo de dor.

Não chores por mim 


30.12.2023

Fernanda Paixão

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Como um rio


Sou como um rio, 

nunca constante, previsível ou vazio

Ou como o tempo, às vezes suave, às vezes intenso mas nunca tempestade, 

Sou de sorriso fácil, de lágrima no canto do olho e de coração nas mãos 

Sou translúcida, talvez até transparente

Às vezes sou uma ilha criada para sofrer,  uma montanha bem alta para gritar sem pudor ou praia de areia quente para partilhar amor.

E se o meu erro é amar, então morrerei de amor.

Fernanda Paixão 

2023.12.15

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Até um dia

 

Até um dia.

 

Aquela brisa que agita a poeira parada nos objectos imóveis,

que levanta o pó da terra dos caminhos calcados dos passos das gentes,

é também a que sopra as folhas, que mortas, se desprendem dos ramos que as ligavam à vida.

Aquela brisa que te fecha os olhos defendendo-os de padecer

é a que te leva ao choro provocado pela poeira que neles entrou.

E assim entre brisas e poeiras, num ciclo infinito impossível de entender, entre sorrir e sofrer unem-se o nascer e o morrer.

 

Até lá, vives nos meus pensamentos.

 

15/01/2021

Fernanda Paixão



quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Quando Morrer

 

Um dia,

talvez amanhã, quando morrer,

quero ser pó.

Pó fino espalhado no vento.

Quero sair como cheguei,

uma ideia sem esboço

que apenas (sobre)vive naqueles que amam.

Quero que aqueles que amei fiquem na certeza do amor que lhes votei.

Quero poucos,

apenas os que verdadeiramente foram amor,

aqueles que comigo partilharam os sorrisos e a dor.

E que sobre o corpo que foi meu, lavado, nu e branco, repouse apenas um pano,

um pano que oculte os olhos já cegos e os lábios sem cor,

e que sobre ele me deixes o teu ultimo beijo, AMOR

  

Fernanda Paixão, 03/11/2021




segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Peço

 

Peço ao vento, que por mim passa,  

que leve consigo as palavras que não consigo conter

e que sopre todas as mágoas que a vida fez questão de padecer

Peço à chuva, de gotas frias,

que lave as faces molhadas da água tinta de dor

e beije os olhos já secos, lívidos … sem cor

Peço à noite que se aproxima,

Escura, muda e cativa

Que seja meiga e me embale,

que ternamente me fale

todas as palavras de amor.

 

Fernanda Paixão, 2021.10.11




quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Sorriso

 

Às vezes pinto um sorriso;

qual rabisco a carvão

traçado no papel enrugado ou noutro que tenho à mão.

Não penso, desenho;

e quando acabo o sorriso

e vejo o quão imperfeito ficou,

não que o sorriso seja mau, ou que tenha acabado a vontade de sorrir,

apenas foi volátil, traçado num papel, a fingir.

Demoro o pensar na gente que passou

e na impressão que no meu eu macerou

rasgo o sorriso e o papel que manchou.

Arrumo os pinceis na caixa que voltarei a abrir.

 

Fernanda Paixão, 2021.10.07




domingo, 3 de outubro de 2021

Veloz

 

Passa veloz,

aquela nuvem no céu,

e a ave entre poisos,

ou o raio de luz que se quebra no mergulho no mar.

Passa depressa a alegria do sorriso que me fizeste traçar.

E porque tudo passa depressa, mesmo sem pressa de passar,

pergunto-me tantas vezes se vale a pena sonhar!?

 

Nesta existência feita de instantes,

em que encontro ambas as faces de um só desejo

relembro o errante e incerto caminho,

e o tempo gasto em dilemas gigantes,

dos quais desejo sair;

perder-me entre gente que não conheço, em ruas cheias de luz

ou correr sem direcção, pisando descalça as quentes do pedras  chão;

E saber que nada importa,

que tudo é um instante;

um o sopro, um fôlego ou o abraço apertado que te peço em surdina,

ou a lágrima que já não cai quando a alma dói.

Passa veloz,

a distância que se percorre a correr,

ou sonho incompleto na noite

e a palavra que te digo ao acordar,

será que vale a pena Sonhar?

 

Fernanda Paixão, 2021 – Out - 03

sexta-feira, 26 de junho de 2020




Aonde vais?
Vou navegar, liberar os sonhos...
E ainda tens sonhos?
Não tenho a certeza, talvez os sonhos me tenham a mim!

Fernanda Paixão
25/06/2020





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Sou eu senhor



Sou eu senhor,
Lavada em sangue e suor
E pó da terra,
E rugas que o tempo sulcou;
E chagas que ele cravou.
Sou eu chorada por mil lágrimas
De dor e alegria
Sou eu na pele que esconde os golpes e a euforia
Da vida que se faz dicotomia.
Sou eu de sorriso entregue à boca alheia, ou de
De dor partilhada, que a dor desnorteia.   
Sou eu
E corro na urgência de um grito ou na volúpia que me flanqueia.
Sou eu
Nas pontas dos pés seduzindo o futuro que se esconde
Ou recordando o que o passado vai unindo
Sou eu em doses pequenas do viver em soluços
Das marcas que deixo no chão
Das palavras que calo e devia falar,
Ou das que grito e devia calar,
Sou eu, pedaço de carne feita gente
Que passa na vida em revista urgente
Sou eu, sou pouco, um pouco feito de nada
Sou apenas gente,
Gente transparente

Fernanda Paixão
26/04/2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um dia fujo



Um dia fujo
Fecho as cortinas do tempo
Caminho até ao pôr-do-sol
Ou até ao pó das estrelas e fico por lá
Salpico de brilho os meus olhos
E pestanejo lançando centelhas no ar
Um dia fujo
Finjo que não oiço a vida
E sorrio ao chamamento do sonho
Deixo-me ir ou simplesmente embalo-me
Nada será,
A linha da vida não cruza as ondas do caminho

Um dia fujo
Roubo o tempo ao tempo
E arrumo-o num canto esquecido
Deixo que se esbata, que se confunda na fuga do olhar
E, aquiescente, finjo que pairo no ar.

Um dia fujo
Dou-te a minha mão para que nela deposites a esperança
Levo-a comigo e, fujo

Fernanda Paixão

30-03-2017

quinta-feira, 30 de março de 2017

No forro do casaco





Escrevo palavras no forro do casaco
E escondo sonhos na algibeira
Corro
Refugio-me
Caminho na rua deserta cheia de gente
Cruzo-me contigo
Os olhos que se olham perscrutam segredos
Nem, tu nem eu nos detemos
Não detemos os corpos, nem os olhares
Apenas o roçar das mãos perpetuam o pensamento
Até um amanhã
Um nevoeiro do quiçá ou uma quimera que o tempo talhará.
Os passos percorrem como sempre o curso da vida
As palavras continuam presas no forro do casaco
Os sonhos guardados na algibeira.
E mesmo que me rasguem o forro do casaco
Nele resistirão as palavras presas com linhas de alinhavar
Sem nós, em ponto corrido para que as possa salvar

Fernanda Paixão

2017 03 29

sábado, 21 de janeiro de 2017

Fina fita estirada







Fina fita estirada

Residir num paralelo;
Numa fina fita estirada
da qual não há sombra ao luar.
Um fio riscado à mão
em antracite esmigalhado
na branca folha do destino.
Pende a vontade
nos passos oscilantes do andar.
Às vezes apetece parar.
E quando o corpo hesita,
na vertigem do caminho,
e a sombra da morte assola,
lacrada num ocre pergaminho;
A fina fita estirada, balança;
O pendão cheira a incenso
daquilo que pode ser.
É frágil, tão frágil, a fina fita
que, estreita, se agita num constante resignar,
num constante oscilar;
num constate cair para a seguir se levantar;
É fina, tão fina, a frágil fita
que nos força a volver a equilibrar.

Fernanda Paixão
14/07/2015

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Leve



LEVE

Leve é o fardo de quem não sente os demais,
de quem olha sem ver
de quem não pretende saber;
Leve é o fardo de quem fere sem culpa,
de quem destrói por prazer,
de quem nada tem a temer.
Leve é o fardo de quem nunca possou fome,
de quem nunca teve medo da morte;
de quem não tem a má sorte.
Leve é o fardo de quem não tem consciência,
De quem não sofre indigência,
de quem perdeu a inocência;

É este o teu fado?

22/12/2016

Fernanda Paixão

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Apogeus




Guardo as palavras que me sobram.
A hora é mais bela no silêncio do olhar
Sinto o calor que o teu corpo emana
E respiro a custo o ar que me queima no arfar

Os meus dedos que procuram os teus,
No espaço vazio em que a procura se perde
Tocam na pele quente dos que procuram os meus
E deixo que a suave caricia da tua mão me herde

Os meus lábios sobem ao encontro dos teus
E no vórtice do toque quente e sem fim
Perdemos o tempo nestes apogeus
Em que selamos a vida em macio carmim

 Fernanda Paixão
01/07/2016


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Entende os teus lábios, sorri




Um amigo nunca te trai,
não fecha a porta e sai.
Estará sempre ao teu “lado”
Conhecendo todo o teu fado


Um amigo sabe dos teus defeitos
E enaltece todos os teus feitos,
Conhecerá as tuas melancolias
Saboreando todas as tuas alegrias.

Um amigo percebe as tuas fragilidades
Ampliando as tuas qualidades
Ele estará contigo se o mundo desabar
Ajudando-te se tiveres que recomeçar.

Um amigo diz-te a verdade
Usando de frontalidade
Mas se de ti ouvir desdizer
Não hesita impedir de acontecer

Um amigo ri contigo,
Rir de ti será castigo
Ele olha por ti,
Entende os teus lábios, sorri

24/05/2016
Fernanda Paixão

domingo, 8 de maio de 2016

Corre-me a água debaixo dos pés



Corre-me a água debaixo dos pés,
Pardacenta, quase barro
Agitada e barulhenta, imparável; virulenta.
Carrega restos de bocas abertas,
De ócio de mentes desertas
De palavras feitas fel, falsidades cobertas de mel.
Corre-me a água debaixo dos pés
Torrente que me arranca a pele,
Deixo que corra.
Que siga por onde quer ir,
Que me fira, se tiver que ferir.
Já não bracejo.
Não luto com fé,
Tento apenas manter-me de pé.
E se a maré tiver que subir,
Resta-me a ela não sucumbir.
Corre-me a água debaixo dos pés
Leva com ela a fúria das gentes
Transporta no leito, de sulco profundo
As mãos agitadas do ímpio do mundo
Corre-me a água debaixo dos pés
Vai cega e sedenta pro seu arraial
Arrasta com ela os corpos do mal
Ceifando as vidas de gente inocente
Por puro deleite, é-lhe indiferente!  
Corre-me a água debaixo dos pés
Carrega com ela o vinho da ira
O sangue dos corpos que o falso carpira
Corre-me a água debaixo dos pés,
Deixo que corra e que me fira
Resisto à maré que as pedras revira
Corre-me a água debaixo dos pés


Fernanda Paixão

07/05/2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Morremos porque sim



Às vezes morremos porque sim.
Outras vezes morremos sem querer.
E há aquelas vezes em que nos matam
Porque nos fazem doer.
A dor que doí não é a dor de morte.
A dor que doí é a dor da fraca sorte,
a dor de lentamente morrer,
de sempre dar e nada receber.
A dor que doí é a premeditação da morte infundada,
da vida incompleta pela maldade ceifada
É a dor da injustiça e das vozes caladas
É a dor que se gera nas costas voltadas
A dor que dói é da ausência de carinho
A dor que doí, doí devagarinho
Às vezes morremos porque sim.
Outras vezes morremos sem querer.
E há aquelas vezes em que nos matam
Porque nos fazem doer.




Fernanda Paixão

30/Abril/2016