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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Peço

 

Peço ao vento, que por mim passa,  

que leve consigo as palavras que não consigo conter

e que sopre todas as mágoas que a vida fez questão de padecer

Peço à chuva, de gotas frias,

que lave as faces molhadas da água tinta de dor

e beije os olhos já secos, lívidos … sem cor

Peço à noite que se aproxima,

Escura, muda e cativa

Que seja meiga e me embale,

que ternamente me fale

todas as palavras de amor.

 

Fernanda Paixão, 2021.10.11




quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Sorriso

 

Às vezes pinto um sorriso;

qual rabisco a carvão

traçado no papel enrugado ou noutro que tenho à mão.

Não penso, desenho;

e quando acabo o sorriso

e vejo o quão imperfeito ficou,

não que o sorriso seja mau, ou que tenha acabado a vontade de sorrir,

apenas foi volátil, traçado num papel, a fingir.

Demoro o pensar na gente que passou

e na impressão que no meu eu macerou

rasgo o sorriso e o papel que manchou.

Arrumo os pinceis na caixa que voltarei a abrir.

 

Fernanda Paixão, 2021.10.07




domingo, 3 de outubro de 2021

Veloz

 

Passa veloz,

aquela nuvem no céu,

e a ave entre poisos,

ou o raio de luz que se quebra no mergulho no mar.

Passa depressa a alegria do sorriso que me fizeste traçar.

E porque tudo passa depressa, mesmo sem pressa de passar,

pergunto-me tantas vezes se vale a pena sonhar!?

 

Nesta existência feita de instantes,

em que encontro ambas as faces de um só desejo

relembro o errante e incerto caminho,

e o tempo gasto em dilemas gigantes,

dos quais desejo sair;

perder-me entre gente que não conheço, em ruas cheias de luz

ou correr sem direcção, pisando descalça as quentes do pedras  chão;

E saber que nada importa,

que tudo é um instante;

um o sopro, um fôlego ou o abraço apertado que te peço em surdina,

ou a lágrima que já não cai quando a alma dói.

Passa veloz,

a distância que se percorre a correr,

ou sonho incompleto na noite

e a palavra que te digo ao acordar,

será que vale a pena Sonhar?

 

Fernanda Paixão, 2021 – Out - 03

sexta-feira, 26 de junho de 2020




Aonde vais?
Vou navegar, liberar os sonhos...
E ainda tens sonhos?
Não tenho a certeza, talvez os sonhos me tenham a mim!

Fernanda Paixão
25/06/2020





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Sou eu senhor



Sou eu senhor,
Lavada em sangue e suor
E pó da terra,
E rugas que o tempo sulcou;
E chagas que ele cravou.
Sou eu chorada por mil lágrimas
De dor e alegria
Sou eu na pele que esconde os golpes e a euforia
Da vida que se faz dicotomia.
Sou eu de sorriso entregue à boca alheia, ou de
De dor partilhada, que a dor desnorteia.   
Sou eu
E corro na urgência de um grito ou na volúpia que me flanqueia.
Sou eu
Nas pontas dos pés seduzindo o futuro que se esconde
Ou recordando o que o passado vai unindo
Sou eu em doses pequenas do viver em soluços
Das marcas que deixo no chão
Das palavras que calo e devia falar,
Ou das que grito e devia calar,
Sou eu, pedaço de carne feita gente
Que passa na vida em revista urgente
Sou eu, sou pouco, um pouco feito de nada
Sou apenas gente,
Gente transparente

Fernanda Paixão
26/04/2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um dia fujo



Um dia fujo
Fecho as cortinas do tempo
Caminho até ao pôr-do-sol
Ou até ao pó das estrelas e fico por lá
Salpico de brilho os meus olhos
E pestanejo lançando centelhas no ar
Um dia fujo
Finjo que não oiço a vida
E sorrio ao chamamento do sonho
Deixo-me ir ou simplesmente embalo-me
Nada será,
A linha da vida não cruza as ondas do caminho

Um dia fujo
Roubo o tempo ao tempo
E arrumo-o num canto esquecido
Deixo que se esbata, que se confunda na fuga do olhar
E, aquiescente, finjo que pairo no ar.

Um dia fujo
Dou-te a minha mão para que nela deposites a esperança
Levo-a comigo e, fujo

Fernanda Paixão

30-03-2017

quinta-feira, 30 de março de 2017

No forro do casaco





Escrevo palavras no forro do casaco
E escondo sonhos na algibeira
Corro
Refugio-me
Caminho na rua deserta cheia de gente
Cruzo-me contigo
Os olhos que se olham perscrutam segredos
Nem, tu nem eu nos detemos
Não detemos os corpos, nem os olhares
Apenas o roçar das mãos perpetuam o pensamento
Até um amanhã
Um nevoeiro do quiçá ou uma quimera que o tempo talhará.
Os passos percorrem como sempre o curso da vida
As palavras continuam presas no forro do casaco
Os sonhos guardados na algibeira.
E mesmo que me rasguem o forro do casaco
Nele resistirão as palavras presas com linhas de alinhavar
Sem nós, em ponto corrido para que as possa salvar

Fernanda Paixão

2017 03 29