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quinta-feira, 30 de março de 2017

No forro do casaco





Escrevo palavras no forro do casaco
E escondo sonhos na algibeira
Corro
Refugio-me
Caminho na rua deserta cheia de gente
Cruzo-me contigo
Os olhos que se olham perscrutam segredos
Nem, tu nem eu nos detemos
Não detemos os corpos, nem os olhares
Apenas o roçar das mãos perpetuam o pensamento
Até um amanhã
Um nevoeiro do quiçá ou uma quimera que o tempo talhará.
Os passos percorrem como sempre o curso da vida
As palavras continuam presas no forro do casaco
Os sonhos guardados na algibeira.
E mesmo que me rasguem o forro do casaco
Nele resistirão as palavras presas com linhas de alinhavar
Sem nós, em ponto corrido para que as possa salvar

Fernanda Paixão

2017 03 29

sábado, 21 de janeiro de 2017

Fina fita estirada







Fina fita estirada

Residir num paralelo;
Numa fina fita estirada
da qual não há sombra ao luar.
Um fio riscado à mão
em antracite esmigalhado
na branca folha do destino.
Pende a vontade
nos passos oscilantes do andar.
Às vezes apetece parar.
E quando o corpo hesita,
na vertigem do caminho,
e a sombra da morte assola,
lacrada num ocre pergaminho;
A fina fita estirada, balança;
O pendão cheira a incenso
daquilo que pode ser.
É frágil, tão frágil, a fina fita
que, estreita, se agita num constante resignar,
num constante oscilar;
num constate cair para a seguir se levantar;
É fina, tão fina, a frágil fita
que nos força a volver a equilibrar.

Fernanda Paixão
14/07/2015

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Leve



LEVE

Leve é o fardo de quem não sente os demais,
de quem olha sem ver
de quem não pretende saber;
Leve é o fardo de quem fere sem culpa,
de quem destrói por prazer,
de quem nada tem a temer.
Leve é o fardo de quem nunca possou fome,
de quem nunca teve medo da morte;
de quem não tem a má sorte.
Leve é o fardo de quem não tem consciência,
De quem não sofre indigência,
de quem perdeu a inocência;

É este o teu fado?

22/12/2016

Fernanda Paixão

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Apogeus




Guardo as palavras que me sobram.
A hora é mais bela no silêncio do olhar
Sinto o calor que o teu corpo emana
E respiro a custo o ar que me queima no arfar

Os meus dedos que procuram os teus,
No espaço vazio em que a procura se perde
Tocam na pele quente dos que procuram os meus
E deixo que a suave caricia da tua mão me herde

Os meus lábios sobem ao encontro dos teus
E no vórtice do toque quente e sem fim
Perdemos o tempo nestes apogeus
Em que selamos a vida em macio carmim

 Fernanda Paixão
01/07/2016


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Entende os teus lábios, sorri




Um amigo nunca te trai,
não fecha a porta e sai.
Estará sempre ao teu “lado”
Conhecendo todo o teu fado


Um amigo sabe dos teus defeitos
E enaltece todos os teus feitos,
Conhecerá as tuas melancolias
Saboreando todas as tuas alegrias.

Um amigo percebe as tuas fragilidades
Ampliando as tuas qualidades
Ele estará contigo se o mundo desabar
Ajudando-te se tiveres que recomeçar.

Um amigo diz-te a verdade
Usando de frontalidade
Mas se de ti ouvir desdizer
Não hesita impedir de acontecer

Um amigo ri contigo,
Rir de ti será castigo
Ele olha por ti,
Entende os teus lábios, sorri

24/05/2016
Fernanda Paixão

domingo, 8 de maio de 2016

Corre-me a água debaixo dos pés



Corre-me a água debaixo dos pés,
Pardacenta, quase barro
Agitada e barulhenta, imparável; virulenta.
Carrega restos de bocas abertas,
De ócio de mentes desertas
De palavras feitas fel, falsidades cobertas de mel.
Corre-me a água debaixo dos pés
Torrente que me arranca a pele,
Deixo que corra.
Que siga por onde quer ir,
Que me fira, se tiver que ferir.
Já não bracejo.
Não luto com fé,
Tento apenas manter-me de pé.
E se a maré tiver que subir,
Resta-me a ela não sucumbir.
Corre-me a água debaixo dos pés
Leva com ela a fúria das gentes
Transporta no leito, de sulco profundo
As mãos agitadas do ímpio do mundo
Corre-me a água debaixo dos pés
Vai cega e sedenta pro seu arraial
Arrasta com ela os corpos do mal
Ceifando as vidas de gente inocente
Por puro deleite, é-lhe indiferente!  
Corre-me a água debaixo dos pés
Carrega com ela o vinho da ira
O sangue dos corpos que o falso carpira
Corre-me a água debaixo dos pés,
Deixo que corra e que me fira
Resisto à maré que as pedras revira
Corre-me a água debaixo dos pés


Fernanda Paixão

07/05/2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Morremos porque sim



Às vezes morremos porque sim.
Outras vezes morremos sem querer.
E há aquelas vezes em que nos matam
Porque nos fazem doer.
A dor que doí não é a dor de morte.
A dor que doí é a dor da fraca sorte,
a dor de lentamente morrer,
de sempre dar e nada receber.
A dor que doí é a premeditação da morte infundada,
da vida incompleta pela maldade ceifada
É a dor da injustiça e das vozes caladas
É a dor que se gera nas costas voltadas
A dor que dói é da ausência de carinho
A dor que doí, doí devagarinho
Às vezes morremos porque sim.
Outras vezes morremos sem querer.
E há aquelas vezes em que nos matam
Porque nos fazem doer.




Fernanda Paixão

30/Abril/2016